Existe um lugar no Rio Tapajós onde o tempo parece ter parado numa tarde de 1934. Há uma caixa d'água de aço inox com quase cem anos, ainda em funcionamento. Há hidrantes enfileirados pelas ruas, casas de madeira ao estilo americano e uma oficina gigante, cheia de máquinas capazes de fabricar peças para qualquer motor. Só falta gente. Esse lugar se chama Fordlândia, e a sua história é uma das mais improváveis do século 20.
O sonho americano na floresta
Nos anos 1920, a indústria automobilística precisava de borracha, e os pneus dos carros de Henry Ford dependiam de matéria-prima controlada por outros países. A solução do industrial foi ousada: produzir o seu próprio látex no coração da Amazônia. Em 1926 nasceu Fordlândia, às margens do Tapajós, no Pará.
Ford não queria só plantar seringueiras. Queria recriar uma pequena cidade americana nos trópicos, com luz elétrica, praças, cinemas, piscinas, campos de golfe e casas padronizadas. Uma vila americana planejada, em plena selva.

O que o projeto não previa
A floresta tinha outros planos. O solo pedregoso não favoreceu o cultivo das seringueiras, e a aventura enfrentou dificuldades que nenhum engenheiro de Detroit tinha previsto. Em 1934, a Ford fundou Belterra como segundo polo agroindustrial da borracha, enquanto Fordlândia entrava em declínio e acabou abandonada.
Ao caminhar por Fordlândia hoje, você pisa numa cidade que foi construída para durar e ficou parada no tempo.
Caminhando entre as ruínas
Quase um século depois, o que resta é a parte mais fascinante da história. A visita passa pelo barracão do cais, onde chegavam norte-americanos, máquinas e mercadorias, pela oficina, pelo almoxarifado e pelo sótão onde as sementes de seringueira eram secas. Há a vila americana, com as casas dos diretores separadas das dos trabalhadores brasileiros, o cemitério abandonado com centenas de cruzes de concreto, o convento e a igreja. O conjunto aguarda reconhecimento como patrimônio, e a viagem até lá exige disposição, o que mantém o lugar quase vazio.

A expedição de dois dias
Para chegar a Fordlândia, a Sol Ecoturismo Alter do Chão organiza uma expedição de, no mínimo, dois dias. A saída é às 7h da orla de Alter, são 160 km subindo o Tapajós, cerca de seis horas de lancha, com paradas ao longo do caminho. A noite é na Pousada Americana, com comida regional, e a volta inclui uma piracaia, o peixe assado preparado na beira do rio. Também é possível visitar a Laje de São Tomé, um farol nas ilhas de pedra do Tapajós.
É um passeio para quem gosta de história, de mistério e de lugares que quase ninguém vê. Para quem já viu as praias de Alter do Chão e quer ir além, Fordlândia é o próximo capítulo.



